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Casos de polícia

Quando elas batem neles

Cresce o número de homens que denunciam às autoridades os maus tratos das mulheres. Nos últimos cinco anos e até Junho deste ano, já 14.285 homens queixaram-se de violência doméstica cometida por elas.…

Hernâni Carvalho

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Morre a vergonha, acaba o silêncio, nasce a queixa. Só nos primeiros seis meses deste ano, as autoridades registaram 1260 denúncias de homens vítimas de maus tratos perpetrados por mulheres. A notícia fez a primeira página do “Jornal de Notícias” no domingo, dia 23. Há homens a ganhar coragem para denunciar os maus tratos de que são alvo. Apesar do preconceito social, a alguns já nem a vergonha os cala. Nos últimos cinco anos e até Junho de 2015, foram 14.285 os queixosos que denunciaram mulheres por crimes de violência doméstica.

Como é que elas agridem
O homem agride essencialmente com a força física, enquanto a mulher usa mais a violência psicológica. Normalmente, começam por lhes colocar a masculinidade em causa. Ou seja, agridem mais ao nível da autoestima e das suas capacidades enquanto homem. De um jeito sub-reptício, gradual e de múltiplas formas, isolam o marido/companheiro da família ou dos amigos. “Fazem chantagem. Depois, humilham-no, por exemplo, em frente a familiares ou amigos, falando de como comparativamente aos colegas, ganha pouco, ou como tem um trabalho desqualificado, etc. Só depois deste processo é que passam à agressão física”, explicou o professor de Psicologia Forense Paulo Sargento, à tvmais.

Quem são as agressoras
“São mulheres, namoradas, amantes, mães, filhas, enteadas ou madrastas. São pessoas que não tendo resistência à frustração, qualquer factor de stresse as descompensa. Muitas sofrem de perturbações psicológicas e de comportamento”, disse Paulo Sargento.

Malvistos
O homem que admite ser maltratado pela cônjuge/companheira ainda é malvisto na sociedade portuguesa. “A vergonha e a autoestima muito debilitadas fazem com que os homens demorem mais tempo a tomar consciência da agressão ao ponto de apresentar queixa, ou pedir ajuda”, concluiu o professor.

Vergonha
“Embora de um modo um bocadinho envergonhado”, dizia Luísa Waldherr, psicóloga clínica da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), em 2013, já se via crescer o número de homens que pedia ajuda como vítima de violência conjugal. Muitos faziam-no por estarem depressivos e a precisar de ajuda. Apenas 2% chegava a formalizar a queixa junto das autoridades.

Coragem
“É preciso ter muita coragem para apresentar queixa por ter sido agredido pela mulher, sobretudo nos meios pequenos”, dizia Leonel Carvalho, secretário-geral do Gabinete Coordenador de Segurança (GCS) em 2005. Ainda é.

Uma hora de sorte
Artur Santos foi morar para Odivelas quando se juntou com “Alice” (nome fictício) e dá graças por ter escolhido um rés-do-chão. “Vivi ali dez meses de terror”, contou-nos. Só conseguiu provar ser vítima de agressões quando a polícia, chamada pela enésima vez, chegou mais depressa que o habitual. “Mal bateram à porta, ela parou de gritar e começou a chorar e a dizer que eu a estava agredir.” “Estamos aqui fora há muito, minha senhora. Estivemos a ouvir tudo”, disse um dos polícias à agressora, que só se tinha apercebido da chegada deles quando os viu. Antes, porque os gritos dela se ouviam na rua, eles tinham-na ouvido vociferar ao marido que lhe ia destruir a carreira, que se ia marcar como fizera das outras vezes e que ele ainda ia ficar mais malvisto. “Tentei sempre não perder a cabeça. Se lhe batesse era a minha desgraça com a Lei”, conta hoje Artur. “Ela gritava à janela que eu não servia para nada, que não era homem, chamava-me palhaço e cornudo e que devia era morrer.” A rápida chegada da polícia naquela noite foi providencial. O marido saiu, não voltaram a viver juntos e ela não lhe fez mais cenas. “Alice” já refez a vida e já regressou às agressões conjugais...

Números negros
Alguns estudiosos destas questões avançaram-nos que em 20% das situações de violência conjugal, são elas as agressoras, embora raramente sejam julgadas e quase nunca condenadas. “Você nunca vai conseguir provar nada porque ela é a mulher”, ouvem alguns na hora de denunciar na polícia.

Sem marcas
Enquanto a agressão física deixa evidencias tão visíveis como um braço partido ou um hematoma, uma das características da violência psicológica é não deixar marcas visíveis. Por isso é sempre muito difícil de provar e de avaliar quantas pessoas foram vítimas de violência psicológica. Eles ou elas.