tvmais

em parceria com a Activa

Perfil

Casos de polícia

A tragédia dos incêndios florestais: e agora?

Na capital, discutem-se as causas. Mas lá, onde tudo foi consumido pelo fogo, choram-se os mortos, tratam-se os feridos e olham-se as cinzas. Ardeu-lhes a vida!

Hernâni Carvalho

Reuters

Morreram todos os que saíram das casas”, disse à TvMais, em Pobrais, Georgina Carvalho, 78 anos. Onze pessoas desta aldeia ficaram na estrada, dentro de carros que, antes de arderem, se enfaixaram uns nos outros. “O calor era insuportável, o fumo cegava e as labaredas eram altas como prédios. Os eucaliptos estavam dobrados até ao chão, isto às oito e meia da noite foi o inferno. Ninguém nos acudiu”, disse-nos com as lágrimas a lavarem-lhe o rosto escuro da fuligem que ainda pairava no ar. “Uma desgraça!”

Extintos
Na altura em que fechamos esta edição (segunda-feira, 26), os incêndios na zona centro do País estão dados como extintos. Que se saiba, morreram 64 pessoas, havendo ainda pessoas desaparecidas e 20 corpos por identificar na Medicina Legal, em Coimbra. Duzentos e cinquenta e quatro feridos. Quatro bombeiros ainda hospitalizados. Um deles esteve dez horas à espera de ser assistido no hospital. A área ardida ultrapassa os 100 mil hectares e dezenas de habitações foram destruídas.
O fogo entrou-lhe pelas janelas e as galinhas, os pintos, os coelhos e os patos morreram. As árvores e a horta arderam. Uma fábrica de madeiras ali ao lado tem as viaturas e máquinas industriais completamente destruídas. “Não sei como consegui correr tanto para salvar a minha casa e o carro. Por fim, já não andava, rastejava. Só eu e o meu marido.” O casal Santos tem mais de 60 anos. Viviam numa modesta casa térrea, em Valinha Fontinha, perto do km 5 da EN 236.

Ardeu a vida
Quatro mil pessoas afectadas pelo incêndio. Casas, gado, máquinas agrícolas, floresta, sementeiras e 95% da floresta ardida. A floresta que é a maior e quase única fonte de rendimento local. A revitalização económica na zona é uma incógnita. Estima-se que nesta tragédia tenham morrido mais de 1500 cabeças de gado e falta alimento para os animais que sobreviveram. Arderam os meios de subsistência de toda a população rural que ainda habita a região. Os outros já saíram daqui há anos... O Governo anunciou um fundo de emergência para a reconstrução.
Albertina Martins tem 84 anos e estava sozinha quando o fogo chegou. Arderam currais, barracões e anexos, cabras e ovelhas. Salvou-se a casa. Albertina e o seu filho, Jorge Marques, 47, residem agora com a família deste numa ilha de ruínas cujo cheiro a queimado insiste em permanecer no ar, em Salaborda Nova.

Oportunismo
Ainda combalidas com as casas destruídas e os animais mortos, algumas vítimas descobriram que foram assaltadas. Em diversos locais apareceram falsos elementos da Segurança Social a tentarem tirar partido da miséria destas pessoas. Nenhum foi apanhado.
Em casa do senhor Costa, o desespero é pelo filho, que continua desaparecido. Tem 21 anos o Diogo. Três amigos confortam o pai. Em vão, claro. O homem está convencido de que o filho morreu. Saiu para procurar o tio e não mais se soube dele. O tio foi encontrado morto ao fundo das terras queimadas. Aqui em Nodeirinho morreram 11 pessoas quando tentavam fugir.

A árvore e o raio
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) revelou que as previsões para sábado, dia 17, estão dentro da “margem de erro” e que os avisos feitos subsequentemente “seguiram as regras”. O mapa de raios caídos nesse dia foi retirado do sítio do IPMA na internet. A PJ recebeu fotografias feitas por moradores locais que já prestaram declarações. Foi assim que em menos de 24 horas localizou a árvore onde o incêndio terá começado, em Escalos Fundeiros, Pedrógão Grande. Causas naturais, diz a PJ, uma trovoada seca. Mas este pode não ter sido o único foco do fogo. O povo das aldeias e os bombeiros falaram à TvMais em “coisas preparadas”. “Há mais de um mês que o incêndio começa sempre no mesmo sítio. Apagamos e recomeça um dia ou dois depois”, disseram-nos alguns voluntários.
A avó de Paulo morreu asfixiada na rua junto à estrada, em Ramalho. A casa que estava a construir na medida em que o dinheiro chegava ardeu. As janelas do primeiro andar tinham sido colocadas 15 dias antes. “É uma tristeza, uma vida de poupanças em cinzas”, afirmou.

“Não havia trovoada no ar”
Em declarações ao jornal “Expresso”, que divulga uma fotografia sua, Daniel Saúde, de 39 anos, conta que estava com a sua mãe, em Escalos Fundeiros, Pedrógão Grande, quando ligou para o 112 às 14.38 horas, a reportar o incêndio, e que registou a imagem do fogo pelas 15.17 horas quando “não havia trovoada no ar”, garante. “Trovoada houve muito mais tarde, no final da tarde”, explicou. Muitos populares naquela aldeia e em outras ali perto garantem também não ter ouvido trovoadas quando o incêndio começou. O presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares, fala igualmente em suspeitas de “mão criminosa”.
“Um incêndio que andava mais do que os carros”
“Não deu hipótese. Queríamos entrar nas aldeias e não conseguimos, porque o incêndio andou sempre à nossa frente”, disse à Lusa o comandante dos Bombeiros de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut, sublinhando, por duas vezes, que “o incêndio andava mais do que os carros”. O comandante de Figueiró dos Vinhos, Paulo Renato, 48 anos, acredita que foram “coisas da natureza”. Os seus homens foram chamados para Escalos Fundeiros, em Pedrógão Grande, às 13.43 h de sábado. Meia hora depois, já tinham sido chamados também para Moninhos Cimeiros, no concelho de Figueiró dos Vinhos. Às 17 h, recebiam o pedido para a zona da Graça. A esta hora já ardia tudo em Vila Facaia. Pelas 19 h, no parque industrial, já era “fogo por todo o lado”. Um depósito de gás, uma oficina de pneus, uma fábrica que trabalha com madeiras, outra de tintas e outra de alumínios. O comandante deixa ali o pessoal e segue no carro de comando para o IC8. Não consegue. A cada ponto que chegava, já as chamas se tinham instalado. Não chegou para todos e houve lugares a que “nem bombeiros lá foram”.