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Casos de polícia

Filhos que agridem os pais

Muitos escondem às autoridades as agressões de que são alvo, mas facto é que, em Portugal, todos os dias há um pai ou uma mãe agredidos pelo próprio filho.

Hernâni Carvalho

DR

Por vergonha, uns escondem as agressões, outros fazem-no por dependerem emocional ou financeiramente dos seus atacantes – os próprios filhos. E no entanto, muitos destes filhos-agressores dependem economicamente das suas vítimas. Os próprios pais.

VERGONHA
A violência sobre os pais vai sendo notícia. Na maioria das vezes, os pais aguentam a situação e desculpam os filhos. Desculpam-nos com razões da personalidade, de saúde mental ou até pela vergonha de sentirem o seu fracasso como pais. Uns vivem a sensação de impotência e vergonha até ao limite. Outros chegam a passar, também eles, à agressão física e/ou psicológica do filho por não verem outras saídas possíveis. Os conflitos familiares tornam-se caóticos. Mas os mais velhos ficam sempre a perder… ou então morrem.

VIOLÊNCIA CONTRA IDOSOS
“Um acto (único ou repetido) ou omissão que cause dano ou aflição e que se produz em qualquer relação, na qual exista expectativa de confiança. Tal acto refere-se a abusos físicos, psicológicos, sexuais, abandono, negligências, abusos financeiros e auto-negligência”. A definição é da Rede Internacional para a Prevenção dos Maus Tratos contra o idoso (1995).


3ª IDADE
Em 1995, a Organização Mundial de Saúde (OMS) contava 542 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Prevê-se que até 2025 sejam 1.200 milhões. Diz a OMS que apenas 30% dos idosos do mundo inteiro recebem pensões de reforma, velhice ou invalidez. Na Europa, estima-se que, em 2020, 20% da população tenha mais de 65 anos, a idade “oficial” do início da terceira idade. Metade das vítimas 
tem mais 
de 65 anos

AGREDIU A MÃR QUE É CEGA
Um homem de 29 anos foi detido pela GNR da Póvoa de Lanhoso por agressões à mãe, de 61 anos, que é cega. Depois de ouvido pelo juiz, foi mandado em liberdade com a obrigação de se apresentar às autoridades e proibido de ter contactos com a mãe. Difícil… Ambos vivem na mesma casa. A mãe, no rés-
-do-chão e o filho no 1º andar… Na freguesia de Serzedelo todos conhecem os tormentos pelos quais a senhora invisual passa às mãos do filho, mas nunca alguém agiu. E, no entanto, trata-se de violência doméstica, um crime público.

AGREDIU A MÃE DURANTE 21 ANOS
A Divisão de Investigação Criminal da PSP de Lisboa recebeu, mais de 21 anos depois do início dos maus-tratos, um mandado de detenção que permitiu prender um filho-agressor de 62 anos, acusado de diversas agressões físicas e psicológicas à mãe de 81 anos e a um irmão de 50. Divorciado desde 1997, foi viver com a mãe e desde então a violência passou a ser o “pão nosso de cada dia”… Há anos que a PSP conhecia as agressões. O inquérito acabou por se estender no tempo, apenas tendo servido para apurar quanto e como as duas vítimas sofreram às mãos deste homem que cometeu diversas agressões físicas e psicológicas ao longo dos anos. Preso pela PSP, foi mandado para prisão preventiva por um juiz de instrução criminal do Campus de Justiça de Lisboa.

ESPANCOU-OS, EXPULSOU-OS E FICOU COM PENA SUSPENSA
Desde os 18 anos que agride os pais. Sempre que não lhe davam dinheiro para álcool e drogas agredia-os. A vítima mais martirizada era a própria mãe. Empurrava-a contra os móveis ou o fogão, e atirava-a para o chão. Foi obrigado a sair de casa, mas os pais permitiram o seu regresso quando o viram sem-abrigo. Apesar deste gesto de grande amor paternal, o homem voltou a agredi-los. Vandalizou a casa de família, em Ribeira de Frades, Coimbra, partiu-lhes tudo o que entendeu (móveis, louças e objectos de valor), espancou-os e expulsou-os de casa, apedrejando-os e ameaçando-os de morte. O tribunal condenou-o a três anos e meio de prisão. Considerando a idade deste filho-agressor (22 anos), e porque ele conseguiu trabalho nos últimos meses, os juízes suspenderam-lhe a pena…

TIPOS 
DE VIOLÊNCIA CONTRA IDOSOS

Física - Ofensas à integridade física, maus-tratos diversos, sequestro e tratamentos médicos arbitrários.

Psicológica - Ameaças, humilhações ou intimidações (verbais ou não), insultos, isolamento social e proibição de actividades.

Sexual - Quando o agressor procura obter gratificação sexual sem o consentimento da vítima, obrigando-a a práticas sexuais.

Negligência e Abandono - Omissão de auxílio do cuidador nas necessidades básicas, como, por exemplo, não providenciar acesso a cuidados de saúde.

Financeira 
ou Económica - Qualquer prática que vise a apropriação ilícita do património da pessoa idosa cometida seja por familiares, profissionais e/ou instituições.

EM NÚMEROS

- Mais de 83% das vítimas dos próprios filhos são mulheres
- Cerca de metade destas vítimas (49%) das agressões dos filhos são pessoas com 65 anos ou mais
- Os autores destas agressões, em mais de 65% dos casos são do sexo masculino
- Estes agressores dos próprios pais (39%) têm entre os 36 e os 45 anos.
- São solteiros (26%) e estão desempregados (31,5%)

Fonte: APAVNúmeros