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Casos de polícia: É a pedofilia uma orientação sexual?

Depois de lhe chamar perversão, transtorno da personalidade e parafilia, alguns cientistas defendem agora que a pedofilia é uma condição biológica e que não muda. Ou seja, uma orientação sexual.

Hernâni Carvalho

iStock

Na semana em que alguns levantaram a voz acerca da pedofilia na Igreja Católica, clamando contra o Papa Francisco, a TvMais foi ver o que diz a ciência. O espanto, para muitos, será parecido ao que outros sentiram quando Galileu falou da rotação da Terra. Resta saber em que ficamos…

Afinal a pedofilia é um transtorno…
Diz o “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais”, na sua 5a edição (DSM–V), da Associação Psiquiátrica Americana, que a pedofilia é um transtorno em pessoas adultas que apresentam impulsos sexuais intensos, recorrentes e incontroláveis, sobre crianças. A 10a edição da Classificação Internacional de Doenças, da Organização Mundial de Saúde, define o pedófilo como uma pessoa com preferência sexual persistente ou predominante por crianças pré-púberes. Ambas as definições referem as fantasias ou impulsos sexuais, mesmo que o indivíduo nunca tenha passado à acção.


…ou uma condição biológica?
Mas há especialistas que já definem a pedofilia como uma condição biologicamente enraizada que não muda. Ou seja, uma orientação sexual. O dr. James Cantor define-a como uma predisposição profunda e imutável. Professor associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Toronto, no Canadá, James Cantor é um psicólogo clínico nascido nos EUA, especializado em interesses sexuais atípicos e parafilias. Amplamente citado em alguns meios científicos, este investigador refere diferenças cerebrais nos pedófilos e sugere que provavelmente se nasce assim. A sua investigação “Eu, pedófilo” foi nomeada para melhor documentário da Academia Canadiana de Cinema e Televisão de 2017.


Estudos
Nos estudos que fez com ressonâncias magnéticas em cérebros de pedófilos masculinos, refere que as mesmas “ligam a pedofilia ao desenvolvimento inicial do cérebro”, publicado no jornal científico “Psiquiatria Canadiana de Hoje” e em “Deficiências da substância branca cerebral em homens pedófilos”, publicado na “Revista de Pesquisa Psiquiátrica”, James Cantor refere ter encontrado menos matéria branca, menor QI e diversas diferenças na fiação cerebral. Mesmo reconhecendo ser uma afirmação controversa, também o dr. Michael Chikong Seto, outro psicólogo forense canadiano e diretor da Forensic Rehabilitation Research no Royal Ottawa Health Care Group, defende vigorosamente que a pedofilia é uma orientação sexual.

Imputáveis
“É cada vez mais difícil explicar a pedofilia apenas em eventos da primeira infância. É puramente biológico ou uma mistura de biológica e experiencial”, avança o investigador James Cantor, afirmando, no entanto, que nada disto implica que os pedófilos não devam ser legalmente responsabilizados pelos seus actos.

Pedofilia é diferente de abuso sexual de menor
“Nem todos os criminosos sexuais que visam crianças são pedófilos, e nem todos os pedófilos são criminosos sexuais”, diz o dr. Michael Seto. Os pedófilos têm atracção sexual exclusiva por crianças pré-púberes e não sentem qualquer interesse erótico por adultos. Agem por compulsão, mas há casos já estudados de adultos pedófilos que não chegam a praticar qualquer abuso sexual a crianças. Ao contrário, os abusadores sexuais de menores são indivíduos que se sentem atraídos sexualmente quer por crianças quer por adultos, que se casam e têm filhos... Agem de maneira consciente, deliberada e por vezes planeada. Ter sofrido abusos sexuais na infância ou usar de drogas ou alcool são factores referidos como potenciadores de pedofilia. “Não se pode escolher não ser pedófilo, mas pode-se optar por não ser agressor sexual de crianças”, disse James Cantor ao canal CNN.

É detectável e diagnosticável
Os comportamentos voyeuristas ou a masturbação com pornografia infantil são, por vezes, os primeiros passos. A pedofilia surge no indivíduo logo na puberdade. Há pedófilos que apresentam baixa autoestima, ansiedade, distorções cognitivas, elevada timidez, hipersensibilidade e até depressão. As fantasias sexuais, os comportamentos ou impulsos com menores pré-púberes e alguma angústia decorrente desses impulsos, são factores para diagnóstico positivo referidos pelo DSM–V.

Sem cura
Nenhum estudo revela ter alterado a preferência sexual ou os impulsos sexuais dos pedófilos de forma radical e duradoura. No máximo, consegue-se que alguns aprendam a controlar as suas tendências. A castração química e outras intervenções farmacológicas não alteram a preferência sexual dos pedófilos. Apenas diminuem o desejo sexual. Diversas psicoterapias podem ajudar os pedófilos a controlar comportamentos. Mas isso apenas reduz a probabilidade de assédios sexuais às crianças, não a erradica.

Virtuous Pedophiles
Há muito que a TvMais vem alertando para a existência de grupos organizados de pedófilos, designadamente na internet. O Virtuous Pedophiles é um deles. Afirmam-se pedófilos que nunca molestaram crianças. Dizem ter um interesse sexual por crianças, mas reconhecem que a actividade sexual entre adultos e menores está errada. E até afirmam existir para dar apoio a pessoas que não procuram ajuda por medo de serem denunciadas. Dizem que nasceram com essa atracção, que não a podem mudar, mas que a podem controlar e até afirmam que o seu site na internet ajuda a prevenir o abuso infantil... “muitos de nós não representam perigo para as crianças. No entanto, somos desprezados por termos uma atração sexual que não escolhemos, não podemos mudar e resistir com sucesso”.