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Maria da Ponte, a mulher que nasceu na Ponte 25 de Abril

A mãe de Ana Cristina deu à luz dentro de um táxi, quando se dirigia para a maternidade, em Lisboa. O facto deu que falar e aconteceu dois meses depois da inauguração da travessia que liga a capital à margem sul do Tejo.

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Luis Coelho

É a terceira filha de Manuel e Valentina Fiel e o seu nascimento ficou marcado pelo imprevisto. Ana Cristina Lopes tem 51 anos e veio ao mundo no dia 7 de outubro de 1966, em pleno tabuleiro da Ponte 25 de Abril (na altura foi batizada de Ponte Salazar). A coordenadora hospitalar recorda com carinho o episódio que ainda hoje lhe vale o nome pelo qual é carinhosamente chamada: Maria da Ponte. “A minha mãe estava no fim da gestação, vivíamos em Costas de Cão, no Monte de Caparica. Naquele dia, 7 de outubro, estavam a ver um programa de variedades na televisão e a minha mãe começou com dores. Não tinham carro e então chamaram um táxi, para transportá--la para Lisboa, para a Maternidade Alfredo da Costa.” No táxi seguiam os pais de Ana Cristina, no banco de trás, o seu padrinho, no banco da frente, ao lado do sr. Manuel, o motorista que os transportou naquela noite .


“O PARTO FOI FEITO PELO MEU PAI”
Com pressa para nascer, Ana veio ao mundo dentro da viatura, no momento em que passava na ponte. “O trabalho de parto da minha mãe intensificou-se e no momento em que estavam em cima do tabuleiro deu-se o meu nascimento. O parto foi feito pelo meu pai, que nunca deixou que o taxista parasse o carro, pediu sempre que ele seguisse a marcha até à maternidade.” O pai de Ana Cristina foi, assim, o parteiro de serviço e esteve à altura do desafio. “Ele fez-se valer do sangue-frio, era muito despachado, decidido e nada o assustava. Quando percebeu que eu ia nascer, cortou a roupa à minha mãe com um canivete. O meu pai foi o primeiro a ver-me, foi ele que me levou ao colo até à maternidade. Quando chegámos foi só cortar o cordão umbilical, trataram de mim e mandaram-nos para casa, porque estava tudo bem!”

Luis Coelho

O DOTE DE SALAZAR
O nascimento de Ana aconteceu durante o regime de Salazar e a notícia foi muito bem recebida pelo então Chefe de Estado. “A ponte tinha sido inaugurada há dois meses e o meu nascimento teve destaque, para dar mais notoriedade à travessia que tinha o nome do ditador, o meu nascimento foi noticiado no jornal. Ele [Salazar] quis que ficasse com o nome de Maria da Ponte!” Esta vontade não agradava a Manuel Fiel, que fez sempre questão de chamar a filha com o nome que escolheu, Ana Cristina. “O meu pai era contra o regime e não gostou nada que ele me tivesse dado aquele nome.” Mas o ditador não ficou por aqui. “As pessoas mais antigas contavam-me que o Salazar me tinha dado um dote, no valor de 20 contos [99,76 euros], que poderia levantar aos 21 anos. O meu pai nunca me deixou levantar o dinheiro.” Como tal, Ana nunca teve acesso a essa verba, que à data era muito dinheiro. “Nunca fui à procura do tal dote deixado pelo Salazar, talvez por respeito ao meu pai. Ele faleceu há 17 anos. Já muitas vezes me disseram para ir atrás disso, mas nunca liguei. Como não existe nenhum documento, isso foi tudo de boca. Penso que já não exista nada, porque não há registos... a não ser o meu assento de batismo.”


Quando se casou pela Igreja o nome que recebeu no batismo trouxe-lhe problemas. “Foi muito complicado, porque era necessário o meu assento de batismo. Sabia que tinha sido batizada no Monte de Caparica e em representação do Salazar foi uma governanta dele. Mas não existia registo nenhum em meu nome... toda a gente procurou e nada! Até que se lembraram que eu era a Maria da Ponte, e então lá descobriram o documento.” Atualmente brinca com o seu nascimento e com o nome que recebeu, mas nem sempre foi assim: “Quando me chamavam Maria da Ponte irritava-me, talvez porque o meu pai era contra o regime. Com o fim da ditadura foi diferente, até brincávamos com isso!”, conclui.