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Rodrigo Guedes de Carvalho: Mergulhados na selva

Mais uma notícia de agressão sobre uma mulher, a juntar àquelas que praticamente todos os dias estão nos jornais, sendo a maioria de homicídios.

Rodrigo Guedes de Carvalho

Pedro Jorge Melo

Há uma discussão no ar, que cresce depois de ter dado os primeiros passos demasiado depressa. Mas era inevitável. E receio que seja discussão sem luz ao fundo do túnel. As redes sociais e a internet estão a formar atrasados mentais, ou eles já existiam, na sua estupidez profunda, mas agora têm mais palco por causa das redes sociais e internet? Deve ser um pouquinho de ambas. A última confirmação que vi foi a propósito de uma notícia sobre alegada violência doméstica (mais uma). Quem se queixa é Luísa Beirão, conhecida modelo (ou ex-modelo, confesso que não sei). Diz a notícia que apresentou queixa contra o actual namorado, tendo sido assistida no hospital. Desde logo, o facto de ter sido assistida ajuda a dar alguma credibilidade a uma agressão, julgo que quem trabalha nos hospitais não tem muito tempo para dar cobertura a mentiras. Mas adiante. O quadro é este: mais uma notícia de agressão sobre uma mulher, a juntar àquelas que praticamente todos os dias estão nos jornais, sendo a maioria de homicídios. Isto é um facto, já nem está a aberto a discussão. Esta notícia sobre Luísa Beirão está nos chamados meios de comunicação oficiais, e nas redes sociais particulares. No momento que vivemos, torna-se difícil saber onde nasceu e quem pegou nela depois: se os media tradicionais replicaram o que viram na internet ou o contrário. Importa pouco. Havendo notícia multiplicada por toda a rede, há um sem-fim de comentários. E aqui recomeça a selvajaria. Há uma maioria de comentários condoídos, solidários com a modelo, insultando o suposto agressor. Dando por boa a informação que nos é oferecida. Depois, há os que duvidam da história, por razões que cada um terá. Há um denominador comum nas desconfianças: muita gente vem lembrar (coisa que eu desconhecia) que Luísa Beirão já apresentou queixa semelhante contra dois outros homens da sua vida. E então, pergunto eu? Então, dizem os desconfiados e desconfiadas, se calhar a rapariga é uma mentirosa, imagina coisas, porque o primeiro marido até foi absolvido de acusação. Será, segundo eles, uma desequilibrada, que, como tantas outras, inventa histórias para destruir reputações de inocentes. E queixam-se mais: que vergonha, hoje em dia basta uma mulher dizer que foi agredida para isso ser verdade? Ora bem... São conhecidos casos infelizes de mulheres que em processo de divórcio inventaram coisas sobre os maridos, desde a agressão à pedofilia sobre os filhos. Mas são, sejamos sérios, uma imensa minoria. A grande maioria das mulheres tem, infelizmente, muitas provas de peso para apresentar, normalmente marcas para sempre, e cada vez mais a perda da própria vida. Isto são factos, terríveis, inqualificáveis e indesmentíveis. Ainda assim, é possível encontrar bestas abjectas nos comentários. Uma senhora de alguma idade (se a sua identificação é verdadeira...) diz: “Ai levou? E ela não tem bracinhos?” E um outro comentário ultrapassa tudo o que é ainda humano: “Ela é boa para levar umas palmadas naquele rabo”. Já estamos noutra era. Eu costumava dizer que as redes sociais parecem um jardim zoológico, mas são já selva aberta. E não vejo que isto melhore, pelo contrário. A cobardia à distância é viciante.