tvmais

em parceria com a Activa

Perfil

Crónicas

Rodrigo Guedes de Carvalho: Nem tanto ao mar nem tanto à terra

Gosto de viver num país onde (ainda) vai havendo liberdade de expressão.

Rodrigo Guedes de Carvalho

Não vi nem ouvi mas soube que uma figura que tem lugar nos comentários televisivos se empolgou e pediu o regresso da pena de morte. Que o tenha dito, por mais que me custe, reconheço-lhe direito. Gosto de viver num país onde (ainda) vai havendo liberdade de expressão. E por isso fica também a minha, inequívoca e penso que imutável: estamos muito bem assim, sem condenações capitais. Mantenhamos intacto o orgulho humanista de termos sido dos primeiros a aboli-la. Com isto clarinho como água, vamos ao outro lado da moeda, que nunca chegará à pena máxima. Mas... o que sentir ao sabermos que, só este ano, já foram caçados quase 80 suspeitos de fogo posto? Primeiro, que faltará caçar uns quantos. Depois, que destes quase 80 são poucos os que ficam em prisão preventiva. A grande maioria (repito: maioria) sai do tribunal com uma palmada na mão e conselhos para ter mais juizinho. Eu sei que muitas prisões têm problemas de lotação, mas se isto passa a ser decisivo na hora de aplicar sentenças, que nos estará reservado? Problemas de lotação, digo eu, mas nem são referidos por muitos juízes que vejo citados. Num dos casos a notícia de jornal informa-me que o suspeito (sempre apenas suspeitos mesmo quando apanhados com a lata de gasolina e o isqueiro) se mostrou perante a juíza “muito arrependido”. Ah, assim compreende-se, eu a pensar que deveria ficar preso num sítio onde não pudesse atear fogos e ele está afinal está muito triste com isto tudo. Acresce, para merecer uma maior compreensão, que o indivíduo explicou que anda muito mal porque está a sofrer de amor, a namorada deixou-o. Recordo: os incêndios mataram 64 pessoas em Pedrógão, da mais horrífica forma que se possa imaginar, e a dimensão destas últimas semanas não fez vítimas (mortais) nem sei como. Mas todos assistimos à angustiante aflição de habitantes de aldeias cercadas, todos vimos ou devíamos ter visto as reportagens onde pessoas faziam a dramática contabilidade do que perderam e não recuperarão. Mas aquele homem estava a sofrer por causa da namorada... E há melhor: a polícia deu-se a enorme trabalho, durante dois anos, para reunir provas que permitiram deter e levar a tribunal um violador. Perante a juíza, o homem mostrou-se arrependido (cá está...) e chorou muito e explicou que a sua “única” intenção era roubar a mulher, embora não saiba explicar como passou daí à violação. Adivinhou: depois do trabalho da polícia a recolher provas que tornaram impossível negar os factos, foi mandado em liberdade. A juíza acredita que está muito arrependido e, além disso, como trabalha num restaurante, está perfeitamente inserido na sociedade. Acrescento que o coitado arrependido pôde consultar no processo todos os dados sobre a vítima, com morada incluída. E pronto, não termino com qualquer conclusão. Cada um que tire a sua.