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Rodrigo Guedes de Carvalho: Respeito e comoção

Os desaparecimentos de Zé Pedro dos Xutos & Pontapés e do empresário Belmiro Azevedo marcaram a semana.

Rodrigo Guedes de Carvalho

Jose Manuel Ribeiro

Não conhecia Belmiro de Azevedo. Mas ouvi falar dele em casa, logo no início da sua ascensão, ali pelos anos 80. Acontece que foi aluno do meu avô, na Faculdade de Engenharia, e o meu avô, ao vê-lo tornar-se figura pública, cedo lhe augurou um trajecto de grande sucesso. Tinha dado nas vistas como aluno. Muitos e muitos anos mais tarde, em 2005, o meu avô sucumbia a problemas que a sua idade avançada não aguentou. Belmiro era uma estrela no firmamento empresarial e mediático. Estava possivelmente no seu auge de fama e sucesso. No início do velório do meu avô estavam poucas pessoas. Sobretudo família. Lembro-me que uma das primeiras visitas a chegar foi Belmiro de Azevedo. Poderia ter sido com outra família. Mas foi a minha, e deu-me assim a oportunidade de verificar que o poderoso empresário não enviava flores do seu gabinete; fez questão de ir pessoalmente homenagear um professor que tanto o tinha marcado. Desde esse dia que não posso ter outro sentimento por ele que não seja respeito. Nas pessoas sempre admirei mais a verdade dos gestos do que a dúvida das promessas. Do resto, do que lhe reservaram as análises, sempre as achei demasiado ideológicas. Para a esquerda sempre foi um capitalista explorador. Que teve a petulância de admitir que pagava salários baixos nas cadeias de supermercado. Não vou entrar por aí. Deixo apenas uma questão: sempre ouvi a esquerda falar, a propósito de tudo e de nada, sobre a “criação de emprego”. Os que tanto insultaram Belmiro quantos empregos criaram em toda a sua vida?

Pedro Monteiro

Já com o Zé Pedro a história é outra. É emoção pura, difícil de explicar. Era do conhecimento público que a sua saúde piorara nos últimos meses, e do conhecimento de alguns que seria de prever o pior em pouco tempo. A notícia, digamos assim, foi tudo menos uma enorme surpresa. E no entanto. A comoção geral que provocou diz bem do que significava o Zé Pedro para mais do que uma geração. Sim, há o rock, os Xutos e tudo isso. Mas há sobretudo uma memória colectiva. Agora que desaparece o Zé Pedro, olhamos para o lado e falta qualquer coisa. Ele esteve sempre lá, connosco. Em grande medida o que desaparece é um pouco (muito) de nós. Os primeiros namoros e festas de garagem, as primeiras saídas à noite, descobertas, zangas, amuos e pazes logo a seguir. Os primeiros empregos e contas. Férias com amigos. Concertos. Jantaradas, os primeiros amigos a terem filhos, e passam a sair menos. Parados no trânsito, a rádio passa Xutos e aumentamos o volume, cantamos refrões alto. Um conforto de estarmos todos a amadurecer juntos. Por isso, quando ele parte, um dos nossos melhores, rebentam as lágrimas. Tiraram-nos alguma coisa. Roubaram-nos aquele que sorria sempre, que via o lado bom das coisas, que não tinha uma palavra áspera com ninguém, que aplaudia os mais novos que começavam a aparecer. Só os grandes não receiam concorrência, só os grandes sabem que na arte não há concorrência. Tiraram-nos um miúdo que tinha 61 anos. O que nos obriga, a muitos de nós, a olhar para o espelho. Ele quereria que depois de olharmos sorríssemos, e levássemos para o carro o CD. Para o caso de a rádio não passar Xutos. É que nos apetece cantar.