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Rodrigo Guedes de Carvalho: Helena e os outros

A Helena Ramos tinha das vozes e dicções mais completas da nossa língua, e pertencia a um tempo em que (imagine-se) isso era um requisito para trabalhar na TV.

Rodrigo Guedes de Carvalho

João Lima


Acabo de saber que morreu a Helena Ramos e a garganta aperta. Aqui há umas semanas, enervei-me quando percebi que uma jornalista, muito interveniente e assertiva, da minha geração, aliás da minha turma de faculdade, resolveu implicar com a Dina Aguiar. E porquê? Porque pelos vistos descobriu agora que a Dina se despede dos telespectadores com um “até amanhã, se Deus quiser”. É a despedida da Dina desde sempre, há cerca de 40 anos. Pois agora a jornalista decidiu “denunciar” a despedida num artigo, multiplicar a indignação nas redes sociais porque, segundo ela, a frase da Dina, ao serviço de uma estação pública, segrega as religiões não-católicas. É precisa muita paciência para os níveis a que está a chegar a febre do politicamente correcto. É precisa ainda mais paciência para entender este ataque nesta altura. A despedida da Dina, repito, tem 40 anos. Ouvi-a muitas vezes, ao meu lado no estúdio. Ninguém liga ou deveria ligar. Não é desrespeito, é a percepção de que se trata de forma de falar, de vício de linguagem, absolutamente inócuo e inofensivo, sobretudo se pensarmos que, sim, é um facto, vivemos num país maioritariamente católico, pense a jornalista o que quiser pensar. Eu poderia até prolongar a discussão, lembrando que Deus pertence a todas as religiões, sob nomes diferentes, e que por isso a expressão não escolhe um ou segrega outros, como Jesus o faria, mas nem vou por aí. O ataque foi tão ridículo que nem merece mais conversa, sobretudo porque não ataca fortes da mesma cepa, que lhe dariam resposta pronta, mas uma profissional discreta.

Adiante. Não gosto da mania moderninha de mordiscar os profissionais do “antigamente”. Não gosto dessa pequena presunção de porcaria. Adiante, adiante. Estou irritado porque morreu a Helena Ramos, e têm morrido demasiados profissionais da RTP com quem cresci, com quem me fiz jornalista e, em grande medida, homem adulto, e eu gosto muito pouco da falta de memória, da falta de gratidão.

A Helena Ramos, que para muita juventude espertinha será uma memória distante a preto e branco, a Helena Ramos tinha das vozes e dicções mais completas da nossa língua, e pertencia a um tempo em que (imagine-se) isso era um requisito para trabalhar na TV, ou seja, para comunicar com os compatriotas. Morre a Helena Ramos e eu, que ainda não me levantei bem a sério da morte do Rui Tovar, volto a meados dos anos 80, ao miúdo que eu era e começou a trabalhar, ido da faculdade, a saber, meu Deus, pouco ou nada (espero que não sintam que segreguei aqui outras religiões…). Eu sabia, percebo hoje, nada de nada, e tive de observar e aprender com quem trabalhava na RTP. E claro que sim, claro que encontrei alguns exemplos que não importava seguir, gente encostada e preguiçosa. Mas tantos e tantas outras, meu Deus, que privilégio foi vê-los, ouvi-los, conviver, aprender. Devo-lhes tanto, quase tudo na minha carreira, porque tive gente generosa a apostar aqui no miúdo, a incentivar-me, a sorrir-me, tantas vezes a apoiar ideias mais radicais que eu tinha para a época.

Morre a Helena Ramos e vem-me uma explosão à memória, eu miúdo, eles mais novos, a ensinarem-me sem pretensões ou paternalismos, com paciência e fé, numa altura em que (é importante perceber) a RTP não era um canal, um dos canais, a RTP era a televisão. E essa responsabilidade de servir os cidadãos, essa enorme responsabilidade que ainda sinto hoje, vem-me de tantos e tantas, de quem me lembro sempre, e hoje com mais força e respeito, hoje que me enervo e me comovo porque morreu a Helena Ramos.